Relato de parto: Marcela e Marina

September 15, 2017

 

Desde o comecinho da gestação, eu e o Alberto acreditávamos que a nossa Marina nasceria no dia 2 de setembro. Porque quando contamos para minha avó materna que eu estava grávida, ela disse que seria uma menina e nasceria nesse dia. Realmente era uma menina, e ficamos esperando pelo 2 de setembro. A data provável do parto pela DUM era dia 1 de setembro, então dia 2 não era improvável.

 

Quando estava com 35 semanas e a doutora Luciana, minha obstetra, estava viajando em uma semana merecida de férias, além de pegar uma virose chata, as contrações de treinamento começaram a ficar bastante frequentes. Graças a Deus ficaram só no treinamento até ela voltar, quando fiquei mais tranquila. Fomos na consulta das 36 semanas, numa sexta-feira, e comentei que estava contraindo toda hora e que ela parecia estar bem baixa porque a pressão na bexiga tinha aumentado. Disse que achava que não chegaria nas 40 semanas, já não acreditava mais que seria dia 2 de setembro. Ela me respondeu que achava que não chegaria nas 38 semanas, que a Marina estava prontinha.

 

Saímos da consulta um pouco assustados, achando que ela poderia nascer a qualquer momento. Tinha começado a arrumar a mala da maternidade naquele dia. Ainda não me sentia pronta e não queria que ela nascesse prematura. Conversei com a Marina e pedi para ela esperar pelo menos até completar 37 semanas, quando o parto seria considerado a termo. Para aliviar a tensão e tirar umas últimas fotos da barriga, fomos passear no Pão de Açúcar no domingo. Foi ótimo poder respirar olhando aquela vista e choramos juntos de emoção por saber que faltava pouco para nossa filha estar nos nossos braços. Terça-feira fiz a minha primeira drenagem linfática, recomendada pela doutora, e quinta fomos fazer a última ultra. Pela contagem da primeira ultra, eu estava com 37 semanas e 1 dia e pela DUM faria 37 semanas no dia seguinte.

 

Ela já não iria mais nascer prematura. Na ultra vimos que estava tudo ótimo, ela estava na posição perfeita, já com um peso bom. Não conseguimos ver o rostinho dela porque estava virado, mas nem nos importamos porque veríamos de verdade em breve. A médica que fez o exame, que era super fofa, disse que achava que o nascimento dela não passaria do fim de semana. Haja coração para receber essa notícia! No domingo seria o dia dos pais e comentei que seria muito legal se ela nascesse nesse dia. Já estava me sentindo pronta para recebê-la. Avisamos a família da probabilidade. Na sexta, fomos na consulta das 37 semanas e a doutora Lu disse que estaria super disponível naquele fim de semana, que seria ótimo se ela nascesse. Marcamos uma prece na nossa casa no sábado com alguns parentes, para preparar tudo para a chegada dela e agradecer pela gestação maravilhosa que eu tinha tido.

 

O encontro foi muito emocionante e me deixou bastante confiante, com a fé fortalecida de que tudo daria certo. Passamos o resto do sábado com uma certa expectativa, dormimos um pouco à tarde, pensando que eu deveria estar descansada para quando acontecesse, mas acabamos indo dormir tarde à noite porque ficamos preparando as sobremesas para as comemorações de dia dos pais que participaríamos no dia seguinte. Já tínhamos combinado de deixar as malas no carro no domingo para não ter que voltar em casa se ela resolvesse nascer.

 

Às sete e meia da manhã de domingo, levantei para ir ao banheiro e senti a primeira contração de verdade. Sabia que não era mais uma contração de treinamento porque era diferente, parecia uma dor de cólica, como tinha ouvido dizer que seria. Fiquei muito feliz e ao mesmo tempo com um pouco de receio de ser um alarme falso provocado por toda a minha vontade de que ela nascesse naquele dia. Voltei para a cama, onde o Alberto dormia tranquilamente, e pensei se deveria acordá-lo para contar. Mas resolvi deixar ele descansar porque o dia provavelmente seria cansativo e com a notícia ele podia não conseguir dormir mais. Tentei dormir, como tinha lido que deveria fazer se fosse possível, mas não consegui. Assim que ele acordou, eu contei que o primeiro dia dos pais dele seria mais que especial.

 

Até que nós dois conseguimos ficar razoavelmente calmos. Esperei chegar dez horas da manhã e enviei uma mensagem para a doutora Lu avisando o que estava acontecendo. Ela comemorou, me disse a programação do dia dela e que eu fosse avisando conforme a situação fosse evoluindo. A gente tinha combinado de ir cedo para a casa dos pais dele pra que ele cozinhasse o almoço, mas ele avisou o que estava acontecendo e fomos liberados para chegar mais tarde e não nos preocuparmos. Avisei para minha mãe e minha irmã também. Tomei um banho quente e relaxante com bastante calma para aliviar as dores que eram incômodas mas ainda bem tranquilas de aguentar. Terminamos de arrumar tudo, tomei uma sopa de legumes porque não sabia se a comida do almoço seria muito pesada para a situação, e saímos. Eu não tinha certeza se deveria ir ou ficar em casa. Sabia que a privacidade era fundamental para a evolução do trabalho de parto e não tinha ideia se a dor iria aumentar muito e eu ia acabar assustando as pessoas no almoço. Mas também tinha medo de deixar para sair de casa muito tarde porque teria que descer três andares de escada com as dores, além de ir de carro da Tijuca para Laranjeiras. Assim, fomos para Copacabana.

 

O caminho com as contrações não foi muito agradável. Mas, nesse ponto, já dava para ter certeza de que era de verdade, estava realmente acontecendo. Chegamos lá e fiquei sentada quietinha com a dores indo e vindo. As contrações foram ficando cada vez mais frequentes e resolvemos começar a marcar o tempo num aplicativo. Mas eu não tinha certeza se estava marcando certo porque era fácil identificar quando começavam mas difícil saber quando terminavam porque a dor ia se diluindo aos poucos. Desde o começo os intervalos não eram grandes, mas quando começamos a marcar, eles pareciam bem pequenos. Medi a pressão e deu 13 por 9, mas a doutora me tranquilizou dizendo que era normal aumentar com a dor e recomendou que tomasse chá de camomila ou erva cidreira e recebesse massagem nos pés. Aproveitei bastante a segunda parte do conselho e segui a primeira também. O almoço demorou um pouco para ficar pronto e a sopa de legumes não deu conta de segurar a fome. Mandei mensagem para a doutora para saber se poderia comer um pouco de peixe. Ela disse que eu poderia comer o que quisesse.

 

Fiquei feliz da vida e almocei um peixe com batatas delicioso e comi um pedacinho da torta de limão que eu tinha feito. Ainda bem que comi porque essa refeição teria feito muita falta. Depois do almoço, a gente teria um lanche na casa do meu pai, no Flamengo. As contrações estavam com intervalos bem curtos, embora estivessem irregulares, e o aplicativo começou a dizer que era para ir para o hospital. A gente não estava conseguindo falar com a doutora, mas eu sabia que o compromisso dela acabaria em breve. Queria saber se era melhor passar na Perinatal antes de ir para o lanche para fazer um exame e ver se já precisava internar. Como não conseguimos falar, resolvemos ir logo e continuar tentando no caminho. Quando a gente estava quase na porta do hospital, umas cinco e meia da tarde, ela respondeu a mensagem dizendo para fazermos uma cardiotocografia e enviar o traçado para ela. Chegando lá, o Alberto disse que a gente queria fazer uma cardiocolonoscopia e pude perceber o quanto ele estava nervoso. Fomos atendidos na emergência rapidamente e, antes do exame pedido, a médica foi checar a minha dilatação. Foi uma grande decepção descobrir que depois de dez horas de contrações eu só tinha um dedo de dilatação.

 

Ela avisou que eu faria a cardiotocografia mas que seria liberada em seguida porque estava muito no começo e podia demorar horas, dias e até uma semana. A dor até estava suportável, mas dias assim eu não ia aguentar. O exame identificava os batimentos do bebê e as contrações. Tive que ficar reclinada para trás, o que foi bem desconfortável, com elásticos presos na barriga, o que foi ainda mais desconfortável, por cerca de meia hora. Tive seis contrações nesse tempo. Fui ao banheiro enquanto esperava para pegar o resultado do exame e ir embora quando senti um pouco de líquido escorrer. Na mesma hora fiquei um pouco tonta e enjoada. Quando entrei para pegar o exame, contei o que tinha acontecido, que acreditava que podia ser a bolsa que tinha rompido. Eu ainda não sabia que aquele pouco de líquido não era nada perto do que ainda ia sair. Ela me examinou de novo e o líquido jorrava sem parar. Entrou em contato com a doutora Lu que disse que eu podia escolher internar ou ir embora e voltar depois quando estivesse mais avançado. Já tinha ouvido muitos relatos de que não era bom internar cedo e, como a casa do meu pai era perto, resolvi ir embora. Mas precisei sentar um pouco e beber uma água antes de ir.

 

Nessa hora, voltou a sair muito líquido, fazendo uma poça enorme embaixo da cadeira onde eu estava. Fiquei com bastante vergonha e não quis mais me levantar porque continuava saindo. Eu sempre achei que quando a bolsa estourava, escorria um pouco e pronto, era o que tinha visto em todos os filmes. Mas nem nos livros que estudei descobri que seria daquele jeito. Um vazar sem fim. Acabei desistindo de ir embora. Não dava para ir sujando o caminho todo. Precisava de um quarto e privacidade com urgência. Alberto teve que me deixar sozinha para providenciar a internação porque eu não queria sair da minha poça. Algumas pessoas começaram a notar e a conversar comigo. A dor estava começando a piorar. Estava me sentindo muito exposta. Alberto fez tudo que podia para que eu tivesse o quarto o mais rápido possível porque cada vez que ele ia me ver eu estava mais desesperada para sair dali. Por volta de sete e meia da noite eu fui internada. Me levaram de cadeira de rodas até o quarto e fui tomar um banho enquanto o Alberto buscava nossas coisas no carro. Impressionante a diferença que fez ter o meu espaço. Assim que entrei no quarto a intensidade das contrações aumentou muito. Já não conseguia mais não gritar cada vez que vinha uma. Fiquei um tempo no chão do box do banheiro sentindo a água. Saí do banho e fiquei variando as posições pelo quarto, tentando achar alguma que aliviasse, bem sem sucesso. Os intervalos eram muito curtos. A dor era muito intensa. Não dava tempo de descansar nada. O quarto já estava parecendo um filme do Tarantino com sangue para todo lado. Uma enfermeira muito querida, chamada Juliana, foi nos ajudar. Ela era fã da minha obstetra e me fez umas massagens. Propôs que a gente fosse para o chuveiro, mas eu pedi que antes ela fizesse um exame de toque porque eu precisava saber como estava evoluindo.

 

Estava muito nervosa porque a doutora ainda não tinha chegado, mas como internei com um dedo de dilatação, ela achou que ainda tinha bastante tempo. Eram nove e meia da noite e a Juliana viu que estava com seis de dilatação, hora de ir para a sala de parto. Tinha evoluído muito rápido. Graças a Deus a doutora Lu chegou bem nessa hora e seguimos para a sala de parto humanizado que fica dentro do centro cirúrgico. Achei a sala muito linda com um teto de pequenas luzes como se fossem estrelas e uma banheira com cromoterapia maravilhosa para onde fui direto quando cheguei. O Alberto colocou para tocar um vídeo do youtube com música relaxante chamado “Music for Healing Female Energy”, que tinha algumas horas de duração e eu tinha ouvido para dormir muitas vezes na gravidez, que deu um clima transcendental para o ambiente. Eu queria que a Marina nascesse dentro da água porque perto do fim da gestação tive a sensação de que era o que ela queria enquanto eu fazia meus exercícios de yoga, mas sabia que ia depender de como me sentisse na hora. Além da água ajudar a aliviar, estar dentro da banheira me ajudou a me sentir com mais privacidade, mais protegida. A doutora já tinha me dito que na hora a maioria das mulheres preferia ficar sem roupa mesmo e eu achava que não seria o meu caso, que ficaria com vergonha. Mas realmente na hora isso não foi uma questão. Podiam ter me levado do quarto para a sala de parto sem roupa que eu não teria ligado. A água às vezes desacelera o trabalho de parto. Não foi o que aconteceu. Continuou evoluindo rápido e quase sem descanso. Chamei o Alberto para ficar comigo na banheira e foi o melhor que podia ter feito. Queria muito que o parto fosse nosso e não que ele só assistisse. Ele me deu força, carinho, massagem, amor, confiança, me disse várias vezes com palavras e com os olhos o quanto o que eu estava fazendo era incrível, respeitou minha necessidade de silêncio e esteve disponível e atento durante todo o tempo para o que eu precisasse.

 

A doutora Lu também foi maravilhosa. Estava ali por perto emanando as melhores energias, orientando quando necessário, assegurando que estava tudo certo e correndo normalmente, segurando a minha mão. Sentia que quando eu e o Alberto estávamos em momentos de maior carinho e intimidade, ela saía um pouco da sala. Não fez nenhum exame de toque em mim durante todo o trabalho de parto, o que foi muito bom. Ela já tinha me dito que conseguia acompanhar a evolução pela posição do coração do bebê, o que é incrível e muito menos invasivo. Senti bem o que descrevem como Partolândia. Me senti inundada pelos hormônios. Vivi fora do tempo. Entrei em contato com o meu eu mais primitivo. Me senti descolada de mim, dentro e fora do momento ao mesmo tempo, vivendo e observando de fora. Fechava os olhos durante a dor e mergulhava em mim. Sentia o amor entre elas. A felicidade de estar cada vez mais perto de trazer a Marina para esse mundo. Passei de um para dez centímetros de dilatação em mais ou menos seis horas. Soube que estava entrando no período expulsivo quando comecei a tremer. Olhei para a doutora e disse que a adrenalina tinha chegado. Mas ela não veio acompanhada de pânico. Hora de assumir uma posição boa para o nascimento dela e de fazer força. Na verdade, horas.

 

O que para algumas mulheres demora alguns minutos, demorou umas 3 horas. Boa parte do tempo com a cabeça dela já coroando. Alberto com as mãos preparadas para segurá-la ia me dizendo o que estava acontecendo. Saía um pouco e voltava. Coloquei a mão e senti os cabelos dela. Com orientação da doutora, o Alberto fazia massagens para ajudar. Eu estava exausta. Cada contração parecia que ia rasgar tudo. Com a demora, comecei a pensar o que podia estar acontecendo que ela não queria nascer. Mudei de posição pensando que ela podia querer que eu a visse saindo. Não funcionou. Pensei que ela podia estar assustada porque eu berrava para todo o bairro das Laranjeiras ouvir há horas. Conversei. Garanti que estava tudo bem. Não adiantou.

 

Resolvi cantar.

 

Tinha uma música que fiz para ela antes de engravidar, outra que fiz quando tive certeza de que esperava uma Marina e outra para o parto que me veio na cabeça dois dias antes. Tinha pensado em levar gravadas para tocar quando ela nascesse, mas não levei. Não achava que conseguiria cantar na hora, mas consegui cantar as três. A dor me deu uma licença e ficou só o imenso amor que queria ter certeza de que ela se sentisse bem recebida. Me senti muito feliz de poder viver esse momento.

 

Ainda assim, ela não nasceu. A doutora Lu me ajudou a não desperdiçar a energia na hora de fazer força, o que foi ótimo. Mas boas mesmo foram as gotas de homeopatia que ela me deu, que nem sei de que eram. Só sei que pouco tempo depois chegou a hora tão esperada. Senti a cabeça dela sair e seu corpo girando para fora às três e dez da manhã do dia quatorze de agosto. Estava ajoelhada, com o corpo inclinado para frente apoiada na beira da banheira. Eles me disseram para olhar para ela e olhei para trás, mas ela estava bem na minha frente. Alberto tinha segurado e passado ela por baixo para que eu a tirasse da água.

 

A emoção dessa hora não dá para descrever. Segurei minha filha pela primeira vez junto ao meu corpo. Ela não chorou na hora. Chorou bem pouco um tempinho depois mas ela tinha tempo para fazer essa transição da respiração porque ainda estava ligada a mim pelo cordão. Ficamos os três abraçados. Nossa família. Quando ela teve que ser levada para ser examinada, agarrou a minha pulseira de identificação bem forte e não queria soltar. Meu coração derreteu. Também não queria me separar. Ainda bem que era por bem pouco tempo. Saí da banheira e fui para a cama para a saída da placenta, que escorregou sem problemas e sem dor. Até aí não tinha ideia se teria ou não que levar pontos. Mas o períneo estava intacto. Muita gratidão nesse momento. A filha logo voltou para o meu colo. Tudo tinha dado certo. Eu tinha conseguido. Ela tinha conseguido. Nós estávamos bem e juntas. Tinha sido natural. Tinha sido com muito amor e muito respeito. Tinha sido transformador. E minha vida se encheu de luz.

 

Marcela de Holanda

Atriz, Parecerista, mãe da Marina

Mulher Viva

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