Depoimento: Marcela de Holanda

July 25, 2017

 

 

Estive com a Marcela em uma Roda de Conversa que facilitei ao ar livre, durante a Virada Sustentável no Rio de Janeiro. Foi um encontro tão bom que ela me mandou dois relatos: um curto, para ser publicado com os demais e um mais longo, que eu fiz questão de publicar na íntegra, como merece.

 

Marcela, que lindo presente receber seu depoimento, gratidão!

 

"Durante a roda sobre parto humanizado, tive muitas oportunidades para falar. Mas acabei encontrando dificuldade porque, mesmo sendo atriz, falar em público sem um personagem não é confortável para mim. Sempre achei mais fácil escrever. Foram tantos os pensamentos sobre o que poderia falar que acabei não falando nada mesmo. Ouvir também é maravilhoso e muito importante.

 

Mas se tivesse falado, gostaria de ter dito que essa minha jornada em busca de um parto humanizado começou há uns anos atrás, quando ouvi falar do filme “O Renascimento do Parto” e busquei assistir. Antes disso, nunca tinha parado realmente para pensar ou pesquisar sobre o assunto. Ao fim do filme, já estava convencida de que era muito necessário buscar os meus direitos e que não me deixaria sofrer violência obstétrica. A ideia de uma cesariana nunca foi atraente para mim. Engraçado o quanto muitas pessoas me falam que é um ato de coragem querer ter um parto normal, quando acho que precisaria de muito mais coragem para enfrentar uma cirurgia sem ter necessidade, principalmente depois que você sabe dos dados verdadeiros de comparação entre os riscos de um e outro. Lembro também que a primeira vez que ouvi falar de episiotomia também foi há poucos anos, assistindo a um filme francês que não lembro o nome em que a mulher tinha dificuldades na recuperação após o corte. Esse filme me deixou chocada.

 

Como assim parto normal também tem corte? É isso mesmo? A natureza esqueceu de algum detalhe? Isso me levou a pesquisar mais e descobrir que não era bem assim, ou pelo menos não precisava ser assim. Estou vivendo agora a gestação da minha amada Marina. Essa gestação começou bem antes da concepção. Dois anos antes comecei a sentir essa necessidade da vinda dela. Antes do casamento, eu e o Alberto tínhamos resolvido que teríamos nosso primeiro filho em 2017, quando completaríamos 10 anos juntos e que começaríamos a tentar engravidar a partir de setembro de 2016. Mas, no fim de 2014, acho que devo ter encontrado com ela em algum sonho e, de repente, não quis mais esperar. Demorei um mês para convencer o Alberto e começamos a tentar sem contar para mais ninguém para não ter pressão externa. Mas não era a hora. Nesses dois anos, várias coisas aconteceram que fizeram a gente ter que interromper as tentativas e esperar. Interrompemos algumas vezes e hoje agradeço a Deus por isso porque se não era a hora, seria muito mais difícil se tivéssemos tentado por dois anos direto sem sucesso.

 

Nesse tempo, deu para estudar, me preparar, de crescer e de mudar coisas que precisava mudar. Deu para descobrir que, infelizmente, o parto que eu desejava seria muito difícil, ou quase impossível, de conseguir pelo plano de saúde. Mas também deu tempo do Universo prover os meios necessários para que quando chegasse a hora eu pudesse fazer a opção de pagar. Já tinha descoberto alguns nomes de profissionais que faziam parto humanizado e pretendia escolher algum para uma consulta, quando uma amiga publicou no Facebook que tinha conhecido a doutora Luciana e amado. Entrei no site e fiquei muito animada com tudo que estava escrito ali, parecia ser realmente o que estava procurando e marquei uma consulta ginecológica para conhecê-la. A consulta seria em janeiro. No dia 24 de dezembro, tive um dos momentos mais felizes e profundos da minha vida ao me descobrir grávida. No mesmo dia, enviei um e-mail para a doutora dizendo que teria que trocar a consulta de ginecológica para obstétrica e perguntando se podia adiantar a data. Ela me respondeu logo em seguida, mesmo na véspera de Natal, e poucos dias depois nos conhecemos. Por curiosidade, fui ver em que dia tinha ouvido falar sobre ela pela primeira vez e foi numa data bem provável de ter concebido a Marina. Com certeza na mesma semana. Sabia que não era a toa, que ela tinha sido enviada para mim. Isso me deu uma grande tranquilidade que me acompanha até agora.

 

Tinha muito medo, depois de ler vários relatos, de passar a gravidez pulando de médico em médico tentando achar alguém que fosse o que eu procurava. A ideia que eu tinha do que seria a minha gestação era totalmente outra. Estava esperando enjoos horríveis que me deixariam muito mal humorada porque nunca lidei bem com enjoos, além de vômitos, tonturas, desmaios, aquela coisa toda. Imaginava que culparia o Alberto pelo meu sofrimento nesses momentos e que seria difícil para ele me aguentar. Era o que eu tinha de referência mais forte. Nada disso aconteceu. Agora, perto de completar 7 meses, continuo esperando o momento em que vai começar a ficar difícil porque até então os desconfortos foram muito pequenos perto das sensações maravilhosas de participar do milagre da vida e sentir minha filha crescendo dentro de mim. Também não sei se e quando a hora do medo e da ansiedade em relação ao parto vão chegar. Por enquanto me sinto muito privilegiada com a perspectiva de viver esse momento. Os livros todos que li ajudaram muito.

 

Quanto mais você entende o quanto essa máquina maravilhosa que é o nosso corpo foi programada pensando em tudo, como cada momento do parto tem várias razões e utilidades para a mãe e o bebê, mais confiança e vontade vai dando de experimentar tudo isso, de ser inundada por esses hormônios, por esse amor e transformada pela dor. Saber que o meu marido está nessa totalmente junto comigo, que vai estar do meu lado todo o tempo como parte ativa do nascimento da nossa filha me deixa ainda mais confiante e o amor por ele só aumenta. Saber que a equipe que vai nos acompanhar vai estar ali encarando não só como um evento médico, mas emocional, amoroso e espiritual de maneira envolvida é tudo que posso desejar. Sei que a minha filha vai ter o nascimento que ela merece e ser tratada com amor e respeito desde o seu primeiro momento de vida.

 

Serei eternamente grata por isso. Fico muito feliz que esse movimento de busca pelo parto humanizado esteja crescendo. Acho que se ele ainda não é maior é por falta de busca de informação. É muito louco o quanto a nossa sociedade cobra que a gente estude um monte de matérias e que se dedique a anos de formação para uma profissão, mas não vê necessidade de incentivar a preparação e o estudo para uma das funções mais importantes que podemos ter na vida que é gerar e participar da formação de um novo ser. Para muito além da gestação, a falta de tempo e dessa visão levam a uma educação das crianças que é quase sem querer, não é uma educação pensada, refletida, vai se levando no dia a dia e o que acontece na maioria das vezes é uma reprodução de padrões.

 

É muito importante mudar isso. É pela educação das crianças que se muda o mundo. A “indústria” do parto vem se beneficiando há tempos dessa repetição sem questionamento. O médico disse que vai ter que ser cesariana por tal motivo e é isso aí, se ele falou deve ter razão. Para que sentir dor no parto normal se eu posso ter uma cesariana? Ih, ninguém me disse o quanto a cesariana podia ser dolorida depois. Enfim, sei que pais perfeitos não existem, que vamos errar com certeza, muitas e muitas vezes, mas desejo dar toda a importância necessária para a formação dela, principalmente a moral, tentar continuar aprendendo para saber ensinar e não esquecer que o presente mais importante que podemos dar é o nosso tempo junto com o nosso amor. Tudo isso pensei enquanto ouvia e participava da roda de parto humanizado. Não falei na hora, mas agora está aqui registrado."

 

Marcela de Holanda

Atriz, Parecerista, Mulher Viva

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