Relato de parto, por Juliana Navarro

September 2, 2019

Com esse relato de parto nem ouso comentar! Aproveite cada letra e cada detalhe do vídeo a seguir...

Relato de gestação e parto do Nicolas: sobre o milagre da vida

 

Nicolas chegou ao mundo e inundou nossas vidas numa imensa chama de Amor (sim, tão grande que tem que ser com “A” maiúsculo!). É tão grande, forte e indescritível, que certamente as palavras nunca serão capazes de traduzir todo o sentimento envolvido na experiência, mas deixá-las aqui registradas não só fortalece tudo o que foi vivido, como nos permite compartilhar com o mundo todo esse Amor.

 

Desde o começo da gestação, escrevo cartas para meu filhote. Afinal de contas, quando ele já me escolhe como Ser para habitar sua vinda, sinto sua consciência e por isso busquei sempre dialogar com ele. Esse relato de parto faz parte da primeira carta que escrevo após seu nascimento e disse a meu filho que precisava escrevê-lo de forma aberta, porque sempre que podemos dividir nossas experiências de Amor com o mundo, a matemática perde o sentido e esse dividir se transmuta, se transforma em um grande multiplicar.

 

E para começar a falar do parto do Nico, preciso voltar - por incrível que pareça - há mais ou menos 6 anos atrás. Naquela época, eu estava vivendo um momento de muito “sucesso” (já explico as aspas) na vida: aos 27, quase 28 anos, tinha uma carreira profissional como administradora de empresas bastante sólida, já estava há quase uma década trabalhando em uma grande empresa, desenvolvendo projetos em diferentes setores do mercado de trabalho no Brasil e no exterior, prestes a me casar com o Pedro, já morando no Rio de Janeiro, finalizando meu MBA, enfim, uma vida bem-sucedida do ponto de vista mundano. Afinal, tinha amor, trabalho, dinheiro, carreira e seria só continuar a seguir a estrada da vida. 

 

Mas o fato é que eu já vinha há um tempo questionando muito que estrada era essa. E se eu deveria realmente segui-la. Por que eu teria que passar necessariamente por aquela estrada? Por que eu não poderia construir uma nova, abrir uma trilha? Por que todos acreditavam que aquela era a melhor estrada? Por que eu não conseguia ver sentido se estava fazendo tudo cert0 e caminhando na estrada certa que todos diziam que era A correta?

 

Fato é que essas perguntas já vinham começando a surgir pelo menos 3 anos antes. E fui seguindo a estrada, mas tentando questionar e colocar um novo olhar sobre aquele caminhar. Nesse sentido, comecei a buscar para mim esse sentido, essa abertura de caminhos. Por isso, investi mais tempo e qualidade nas minhas terapias, no meu autoconhecimento, e comecei a estudar muito sobre tudo o que envolvia esse “conhecer-me”. E isso se deu de diferentes formas, com um olhar que buscava ser múltiplo, que foi desde a psicanálise, terapias de vidas passadas, novas formas de ver o mundo e a nova sociedade quântica que surgia como novo paradigma diante da sociedade mecanicista, passando por estudos de novas alternativas de educação, de movimentos de mudança no mundo em instituições como educação, economia, família, entendendo o novo olhar sobre o ser humano e sobre sua saúde. No fim, todos os questionamentos  me fizeram ver um clarão naquela estrada e quando olhei para dentro de mim, descobri que eu poderia abrir a estrada que eu quisesse, onde eu quisesse, do jeito que eu sentisse que era para ser. Porque a vida é para ter sentido.

 

Com isso, resolvi sair do mundo corporativo, assumir minha mudança de “carreira” e abraçar minha missão. E quis fazer isso inteira. Uma das coisas que fiz e foi essencial foi abandonar o anticoncepcional. Acho importante dizer isso, pois este é um relato de parto, e a conexão com o corpo é algo fundamental demais para não ser retratada. Veja bem: isso não é uma apologia ao uso ou não uso, é só a minha história. Eu me sentia uma zumbi tomando o anticoncepcional. Aquela bomba de hormônios me tirava do meu centro, me fazia desconhecer meu próprio corpo, a sensação era de navegar em águas turbulentas de emoções que muitas vezes me afogavam e eu não sabia nem o motivo. Para mim, o discurso de liberdade que a pílula traz para a mulher é, no fundo, uma grande ilusão para mascarar a prisão em que nos colocamos. Para mim, não fazia sentido mais não me reconhecer. Eu sempre via meu corpo como meu templo, sempre tive esse cuidado, eu estava em uma relação séria e estável há anos e, naquele momento, mesmo que eu não estivesse, seria a escolha de tomar as rédeas do meu corpo de volta para mim depois de anos vivendo como um robô. Incrivelmente, muita coisa melhorou: a pele, a libido, as cólicas que desapareceram, meu humor que já não era instável, a relação com minhas emoções e consequentemente minha relação com o mundo.

 

Isso, junto com todo o olhar que eu vinha construindo, me levou a buscar onde é que surgiam essas disfunções todas que nos levavam a tal ponto de desconexão. E uma das raízes em que cheguei foi justamente na gestação e no parto. Quando comecei a ver filmes, documentários, relatos sobre a forma como o parto foi mecanizado, hospitalizado eu pensei “meu Deus… isso explica muitas das doenças do mundo”. Ouvir Michel Odent falar que estamos sintetizando a ocitocina, o hormônio do amor, me fez verter uma lágrima que doeu. E, por isso eu só pensava: “Meu Deus, tomara que, quando eu for parir meu filho, eu possa dar a ele uma gestação e um parto que ele mereça, que nós mereçamos: cheio de amor, mas aquele de verdade, da ocitocina natural. Tomara que eu encontre no meu caminho pessoas que sustentem isso e me ajudem nesse processo. Afinal, gestar e trazer uma vida ao mundo é um milagre lindo e grande demais… Não vou me preocupar com isso agora, porque sei que vai ser do jeito que tem que ser, mas entrego na suas mãos o desenho desse caminho”.

 

Sempre achei que Deus(a) é o melhor artista plástico que existe. Por isso, deixei o desenho deste parto em Suas mãos. Não poderia ter sido melhor.

 

Os anos foram se passando. Abraçar minha missão estava me trazendo uma alegria sem fim! Ajudar as pessoas a se encontrarem estava me fazendo bem até a alma. Conheci, nesse tempo, uma das pessoas mais lindas da vida, uma irmã de alma: Marina. Uma ariana forte, linda e inteligente, mas de interior suave e doce. Era a sincronicidade fazendo nossos caminhos se cruzarem nessa vida. Ali, Marina estava em uma busca de ressignificados muito parecida com a minha em essência. Campos ressoando que se atraíam. Nessa época, foi quando ela se descobriu doula, se abriu de forma linda para o que a vida a oferecia e foi rodar o mundo, em busca de conhecimentos sobre o sagrado feminino. E que orgulho que me dava dela, viu? Que pessoa espetacular, que força, que humildade, que servir.

 

Meu casamento não poderia estar melhor: a cada dia eu e Pedro nos redescobríamos, nos reapaixonávamos, nos reamávamos, e íamos juntos, em todos os momentos, em todas as dificuldades e prazeres. A cada dia, eu me surpreendia ainda mais com a beleza do homem que escolhi para ser meu parceiro de caminhada. E me encantava como podia ter ainda mais amor naquele coração. E a ideia de um filho já nos rodeava e muito timidamente foi crescendo, mas fomos deixando ela fluir. 

 

Mas aí veio um furacão na minha vida. Daqueles de tirar a gente do lugar totalmente, da sensação de explodir o coração e ficar estatelada no chão. Perdi meu pai. Há quase um ano atrás, no dia 05 de julho. Um infarto fulminante explodiu o coração dele. E o meu. E da minha mãe. E do meu irmão. E da família. E dos amigos. Curiosamente, ele se foi 2 semanas após seu aniversário de 63 anos, data que ele passou conosco aqui no Rio. Era sua despedida. Aquilo me jogou no chão. E o Pedro estava ali, do meu lado, incansável, me amparando no momento em que eu me vi… nem sei… Nem sei como me via. Mas ele me via. Não… Ele me enxergava. E estava ali comigo.

 

Foi o momento mais difícil da minha vida. Mas foi também aquele de maior transformação para mim, meu irmão, minha mãe. E também para meu pai, tenho certeza disso. Costumo dizer que tenho que ser grata, por não tê-lo visto sofrer e sim inclusive ter tido a oportunidade de passar seus últimos dias aqui comigo de forma muito feliz e comemorando seu aniversário. Uma das únicas certezas da vida é de nossa existência. A gente só muda de plano. Então, digo que é como se tivessem “tirado ele da tomada” porque ele tinha virado 220v e na voltagem de 110v ele já não ia funcionar. Como diz Santo Agostinho, “a vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado”. 

 

E o que isso tem a ver com o parto? Bem… Parto é sobre vida e morte. Morremos em algum lugar para nascer aqui. E meu pai morreu aqui para nascer em outro lugar. Parto é partir também. Partir de um lugar para outro. E ali eu parti da metade da minha Juliana-filha.

 

Algumas semanas depois da partida do meu pai, eu, Pedro e alguns amigos viajamos para a Bélgica. Nossas férias já estavam planejadas há um ano e entendi que deveria ir, inclusive para espairecer. E lá, em um dos mosteiros que visitamos, após cruzar o bosque que ligava o hotel à igreja, no meio de uma missa ao som do canto gregoriano, eu fechei meus olhos, entrei em estado meditativo, me conectei ao meu pai e chorei. Chorei muito muito muito. Ali eu agradeci muito por tudo, e por entender que deixar de ser filha me doía, mas abria espaço para algo que eu desconhecia. Porque na vida, quando Deus nos tira algo, é porque estamos prontos para receber algo maior. Mal sabia eu, que eu começava a deixar de ser filha, para abrir espaço para ser mãe. E que o Nico já começava a se conectar a nós em outras esferas, porque eu sentia isso. E também sentia que seria menino.

 

Em outubro, no dia 31, dia das bruxas, resolvi fazer o teste de farmácia. Eu já sentia que estava grávida, mas não queria dizer nada ao Pedro, porque queria fazer uma surpresa. Queria contar de um jeito bem divertido, que é a cara dele. Então, esperei chegar uma blusa que comprei para ele escrito “Jedi Master” e um bodyzinho para o bebê, escrito “Young Padawan”. Numa caixa, coloquei os presentes, o teste de farmácia e uma cartinha do Nico para o pai. E foi uma noite muito muito feliz! 

 

A ficha não tinha caído. Na verdade, acho que nem agora, que vejo o Nico fora da barriga, ela caiu (risos). Ter um filho é algo tão grandioso, que minha mente não consegue processar o significado. Então eu só sinto. Mas acho que essa ficha nunca vai cair. Fato é que, ficha caída ou não, tinha uma pessoinha especial que precisava saber da chegada do Nico, porque era ela quem precisaria estar conosco durante esse momento: Marina. Um dia, em um almoço super gostoso que ela fez para nós, ela recebeu a notícia. E que delícia de carinho recebemos dela! Que delícia quando ela ajoelhou, abraçou e beijou minha barriga. Sim, era ela! A nossa doula! E o coração ficou quentinho, cheio de alegria. Sabíamos que estávamos em ótimas mãos. E veio à mente tudo aquilo que contei lá atrás: obrigada, Universo, obrigada, Deus, por ser um artista plástico maravilhoso e nos dar ela de presente.

 

E a partir dela veio a próxima pincelada na tela, a conexão mais linda que Nina poderia nos trazer: tia Lu! Perguntei a Nina sobre quem ela confiava como profissional para nos conduzir nessa magia da gestação e ela nem titubeou. No mesmo dia, marquei a consulta com a Lu.

 

Chegamos no consultório em São Cristóvão e o meu coração acelerava, mas ao mesmo tempo estava em paz. Ali, eu já sabia que era ela. Quando entramos no consultório, e ela veio e deu aquele abraço de Lu, eu tinha certeza. A acolhida foi tão maravilhosa, que ali mesmo nos abrimos. Eu e Pedro contamos toda essa história que escrevi até agora, sob a escuta mais amorosa que já tive de um profissional de saúde. A cada consulta, quando ela ia auscultar o neném e fala “Oiii… Tia Lu!”, eu me derretia (e aposto que o Nico também!). Lu nos abraçou com nossa história, nos abraçou inteira, sem julgamentos, e ali ela se tornava a grande maestra da orquestra do parto. Se o parto é um ritual, era ela ali se apresentando a nós como a grande sacerdotisa que ia conduzi-lo. 

 

Quanto amor e poder pode haver em uma mulher? Não dá para quantificar. Mas estávamos nas mãos de duas Deusas. E a confiança lá de trás de que teríamos a melhor equipe só se confirmava.

 

Os meses foram passando lindamente. Não poderia ter tido uma gravidez melhor: não tive qualquer enjôo, eu e Pedro conversávamos muito com o bebê em nossa barriga, ia para o yoga com a Fadynha duas vezes na semana, sentia ele crescer e mexer dentro do meu ventre. Que sensação mais louca e maravilhosa ao mesmo tempo. Além disso, eu me sentia muito grata a Deus por ter me dado forças para fazer aquelas mudanças lá atrás. Certamente, se eu ainda estivesse no mundo corporativo, trabalhando insanamente, eu não poderia desfrutar com tanta beleza, naturalidade e saúde a gestação. E isso certamente fez toda diferença para o Nicolas. Foi também um período em que eu e Pedro aproveitamos e tiramos férias para descansar e curtir nós dois. Aliás, nós três, com o Nico na barriga. Fomos para praia, no meio da natureza, ficamos uma semana numa vila de pescadores praticamente deserta. Aproveitamos para registrar esse momento da barriga para mostrar para o pequeno quando ele fosse grande.

 

Nesse período, enquanto eu gestava o Nico e me gestava como mãe, vi um dos processos mais lindos acontecerem: o Pedro se gestava como pai. Dava gosto de ver o brilho nos olhos dele a cada pesquisa que fazia, a cada coisa que descobria. Como ele se envolveu! Participou de absolutamente todas as consultas e exames, buscou cursos, conheceu pessoas, leu livros,  descobriu todos os podcasts de paternidade que existem (risos), foi comigo a palestras, fizemos curso de Shantala juntos, conversava com outros homens sobre paternidade, ressignificou muito da masculinidade ferida que a sociedade nos traz, até convidar os amigos para rodas de discussão sobre paternidade e masculinidade ele convidou e foi muito legal. Foi a coisa mais linda ver ele participar de cada encontro com a Nina durante a gestação. Dava gosto quando fazíamos exercícios de spinning babies em casa juntos e eu via ali seu olhar me sustentado, se preocupando conosco. Todo o carinho, amor e cuidado dele durante a gestação certamente foram sentidos pelo Nico na barriga. E ali, aquele amor que eu achava que já era grande demais, mostrava que podia crescer ainda mais. E estava crescendo. E ali eu via que ele estava na sua gestação do seu ser pai.

 

Ainda durante a gestação, também tivemos de presente a oportunidade de participar de uma roda para pais que a Nina e a Lu organizaram. Que delícia de dia! Foi muito legal estar ali com outros pais, em um espaço de escuta, de cura, de entendimento do parto, de tudo o que envolve esse ritual do ponto de vista médico, físico, psíquico, espiritual até. Ver Lu e Nina juntas é como assistir a uma linda peça de dança, daquelas de dar brilho nos olhos, tamanha a harmonia entre elas.

 

Na reta final, também resolvemos que iríamos fotografar e gravar o parto. Assistimos alguns vídeos de parto durante a gestação e pensávamos: “seria muito legal a gente poder mostrar para o Nico como ele chegou ao mundo, né”. E aí resolvemos fazer o registro, para que o pequeno pudesse assistir sua chegada ao mundo e para que nós pudéssemos de alguma forma reviver aquele momento que certamente marcaria nossas vidas. Foi nesse momento que Débora surgiu. Débora, doula-fotógrafa e daquelas cujas fotos eram maravilhosas: poderia ser melhor? Sim, poderia. Porque Débora foi de uma delicadeza durante todo o trabalho de parto que não dá para explicar. Mesmo com o pé torcido, ela estava lá, incansável, no seu cantinho, captando com cuidado tudo o que acontecia. Com uma entrega sem tamanho e muito amorosa, nos ajudou e nos doulou também. Que amor de pessoa, que amor de olhar! Débora, muito obrigada por registrar esse momento tão especial de nossas vidas.

 

Mas essa reta final chega… E na verdade digo que começou a chegar em prestações. No dia 17/06 a lua cheia chegou com tudo, mas já no sábado anterior, senti que alguma coisa estava diferente. Toda lua influencia toda mulher, e a cada virada de lua eu sentia algo, mas aquela foi diferente. Lua cheia, lua de água, lua maternal. E desde o sábado, dia 15, eu comecei a sentir várias contrações. Começaram seguidas, de 30 em 30 minutos e o espaçamento foi diminuindo ao longo dos dias. Mas elas não doíam, pareciam não evoluir. Só sentia que não eram as mesmas contrações de treinamento, que a barriga toda ficava dura, mas as contrações pareciam não evoluir. Enquanto isso, Lu, Nina e Débora nos acompanhavam pelo nosso grupo no celular. No domingo, liguei para minha mãe e disse o que estava acontecendo para que ela viesse de Minas a tempo, pois não sabia como seria aquele processo e ela certamente levaria tempo para chegar. E ela chegou na segunda de manhã.

 

Durante toda noite, senti as contrações, mas elas não evoluíam. Nina e eu já tínhamos um horário agendado para fazer uma massagem de manhã. Ela aproveitaria, então, e veria a necessidade de irmos na Lu. Minha mãe chegou pela manhã e a Nina veio mais no fim da manhã. Fizemos um banho, Nina me fez massagens, ali ela descobriu que eu estava com muitas dores nos ísquios. Ligamos para a Lu e fomos ao consultório: eu, Marina, Pedro e minha mãe. Ao chegar lá, a Lu me examinou e disse que eu estava com quase nada de dilatação, mas que eu precisaria abrir a pelve superior e liberar a musculatura inferior. Como sempre, conversamos sobre todo o processo e veio à tona uma dor inconsciente: o aniversário do meu pai seria dia 21, e estava se aproximando. A falta dele ainda me doía e saiu em uma crise de choro. Falamos muito sobre essa dor e a importância de liberá-la.Foi tão forte, que, ao sair do consultório, eu já praticamente não tinha contrações. Afinal, elas eram uma forma que o Nico encontrou para me avisar e pedir para resolver ainda algumas pendências antes de sua vinda. E ainda temos um detalhe interessante: Lu nos disse que precisaria fazer uma viagem e se ausentaria nos próximos dias, mas que porventura, teríamos sua backup acionada. Ela estava preocupada, mas disse que teria que nos avisar pessoalmente, mas disse que sabia que ela estaria aqui no parto, que o Nicolas iria aguardar. Posso dizer a verdade? Nem me preocupei, porque eu também sabia que ele iria esperar. Ele já tinha escolhido ela para nos partejar e saberia esperar. Eu, como mãe, aprendi muito a esperar nessa gestação: o útero nos convida a mudar a percepção de tempo, quando temos que esperar 9 meses em um mundo que nos incita a correr o tempo todo. E esperar também envolve entrega: saber que tudo vem no tempo certo, no tempo de Deus.

 

Depois da consulta, quando já estávamos eu e minha mãe, conversamos muito sobre os partos dos filhos dela e ela me confidenciou uma coisa: seu primeiro filho, meu irmão, João Vicente, que faleceu logo após nascer, faria aniversário dia 11 de junho. Falamos sobre meu avô materno, que também faria aniversário dia 19 de junho. Conversamos sobre as dores do primeiro parto de minha mãe, sobre a má formação do bebê, só descoberta muito tardiamente. Falamos sobre o contexto e dores que ela carregava na época. Ali, descobri porque meu corpo estava contraindo tanto, antes da hora: era minha ancestralidade me chamando a olhar para todos esses registros que estavam no meu corpo, no meu DNA, e que precisavam ser ressignificados para dar lugar à energia nova que o Nico traria.

 

Nina me indicou uma fisioterapeuta especialista em grávidas maravilhosa, Dominique, que apareceu nos 45 minutos do segundo tempo, mas que me acolheu, me ajudou com a parte mecânica, mas também sobre o significado de tudo isso que eu tinha acabado de descobrir, todas essas dores que estavam ali: meu avô, meu pai, meu irmão, as dores da gestação doída da minha mãe, as dores da ancestralidade. E o que eu podia fazer? Abraçar isso. Trazer para a consciência e viver o processo de forma a integrar essa questão. Trazer luz para a sombra, reconhecer e honrar minha história, para liberar as dores e deixar a fluidez dos novos caminhos entrarem. 

 

Conversei muito com o Pedro sobre isso tudo e resolvemos ritualizar esse momento. Você pode até estar se perguntando: “nossa, Juliana, mas quanto ritual”. Pois é… O ser humano é ritualístico, não é? Cada ritual é um marco na nossa psique. Cada ritual é um momento em que somos convidados a olhar para dentro, reconhecer nossa pequenez e nossa grandeza. Cada ritual é uma oportunidade de conhecermos a nós mesmos. Cada ritual é uma parte da travessia que é a vida. Por isso, cada ritual pode - e eu diria até que deve - ser vivido em sua intensidade, porque a vida é justamente essa caminhada, e os rituais são os passos que constróem essa estrada. Desde o pequeno ritual de acordar de manhã e agradecer pela vida, pelo alimento até os grandes rituais, como quando nos casamos, quando fazemos aniversário, quando morremos e quando nascemos.

 

Então fizemos nosso pequeno ritual. Fomos ao Parque Guinle, perto de nossa casa, no dia 21, que além de ser o dia em que meu pai faria aniversário, era o primeiro dia e dia do solstício de inverno, a estação de água, a mais maternal. Lá, escrevemos cartas para nossos ancestrais, agradecendo pela caminhada de todos eles até ali. Mesmo com todos os erros e defeitos, cada um deles entregou uma paternidade e uma maternidade melhor que a anterior que tiveram. Isso é evolutivo e reconhecer esse crescimento faz parte de nos tornarmos mais inteiros. Escrevemos uma carta para o Nico, para abrir espaço para esse novo Serzinho que estávamos trazendo ao mundo, e para agradecer a ele por ter nos escolhido como seus pais. Queimamos as folhas e recolhemos as cinzas. À tarde, fui à casa da Nina e, conversamos muito sobre isso. Lá, no meio do Cosme Velho, entre a natureza (parecia inclusive que eu estava fora do Rio de Janeiro), tomei um banho de banheira, curti minha barriga, agradeci a Gaia por me dar a oportunidade da gestação do Nico, pedi a Deus para liberar essas memórias, me ajudar a evoluir e crescer e que isso também pudesse ser rico e bonito para todos os envolvidos. À meia luz, sozinha, em um banho de banheira cuidadosamente preparado pela Nina, com uma música deliciosa de fundo, eu chorei, agradeci, honrei e comecei a me despedir da barriga. Quando a água da banheira escorria, joguei as cinzas das cartas para que fossem levadas pela água corrente, junto com as pétalas de rosas que me rodeavam no banho. À noite, no dia seguinte, tivemos a grata surpresa de assistir a um filme lindo juntos: Viva: a vida é uma festa, uma animação linda linda linda que nos fez mergulhar em toda essa história de linhagem de forma lúdica, amorosa, divertida e que nos conectou com nossa criança interior de uma forma muito linda.

 

Passei a semana super bem e sentia vez ou outra as contrações, mas sempre da mesma forma, sem sentir dor. Fui à fisioterapeuta, o que me ajudou muito na abertura da pelve, curti o feriado com o Pedro e estava bem. E aí passamos para o capítulo do Parto.

 

O Parto do Nico

 

Na segunda-feira à tarde, quando a Lu estava no seu vôo de volta, fui ao banheiro e vi que havia começado a perder meu tampão mucoso. Bem… Sinais de que agora era para valer que a hora estava chegando. Avisei ao Pedro, Lu, Marina e Débora. Lu pousou no Rio com a notícia do tampão. Já estávamos todos alertas.

 

Na madrugada de segunda para terça, por volta de 1h da manhã, senti uma cólica mais forte. Ali percebi que algo já estava diferente. A barriga endurecida doía de um jeito que não tinha sentido antes. Abraçada na minha almofada, com o Pedro ao lado, percebi que tinha contrações com espaçamentos irregulares. Às vezes a dor vinha de meia em meia hora, às vezes de cinco em cinco minutos, às vezes de quinze em quinze. E quando vinha, eu vocalizava as vogais de nossos nomes para ajudar a respirar e conduzir a dor para baixo, como se a liberasse de cima para baixo. Às 4h30 da manhã, eu e Pedro já estávamos na sala, e ele me ajudando com os exercícios de spinning babies, me assistindo, e eu fazia de tudo quando a dor vinha: ora ficava na bola de pilates rebolando, respirando e relaxando, ora deitada no chão dormindo, ora em pé vendo a lua minguante da minha varanda. Sim, Nico escolheu a lua minguante para nascer. Lua de ar, com uma mãe de ar. Tudo fazendo sentido. 

 

Foi quando as dores começaram a ficar mais intensas e às 5h da manhã ligamos para a Nina. Em alguns minutinhos, ela estava conosco em casa. Aqui vale o primeiro ponto fundamental: grávida, tenha uma doula. Simplesmente tenha. Nós tivemos a oportunidade de contar com a Marina que, além de amiga, é uma profissional ímpar. O papel da doula é milenar. Se você revisitar quadros antigos, vai ver como elas estão presentes em diferentes imagens de parto. Além da parteira, a mulher costuma estar assistida por outra mulher. Porque é sororidade. Porque a energia feminina que vem em um parto é grande demais e tudo isso forma um campo que nos sustenta energeticamente. E porque profissionalmente, do ponto de vista prático, é quem vai conduzir o casal e especialmente a mulher em todo o processo pré, durante e pós-parto. É um cuidado que nós merecemos, porque é um momento da vida em que o racional precisa dar lugar ao instinto, às estranhas. E ter alguém ali que não só sabe conduzir perfeitamente o processo conosco, mas também nos ajudar emocionalmente a lidar com essa montanha russa que é o parto é fun-da-men-tal. Aqui, deixo registrada minha profunda gratidão à Marina, de todo meu coração. Que mais mulheres e famílias possam ter acesso a você, que mais mulheres possam ter acesso a doulas, que o papel dessa profissional ganhe cada dia mais espaço. Honro vocês.

 

Ali com a Nina, continuamos no processo, mas as contrações ainda estavam bastante irregulares. Por volta de 7h da manhã, elas começaram a ficar ritmadas. A Lu já tinha deixado conosco a solicitação para fazer a cardiotocografia fetal e monitorar esse comecinho do TP. Nina, Pedro e eu fomos, então, para a Perinatal. Chegando lá, eu aguardava nos braços do Pedro enquanto estávamos na sala de espera. A cada contração, eu me segurava nele e abaixava. Depois, ele me disse que parecia que eu tinha uns 200 kg tamanha a força que eu fazia. Mas naquele momento, não. Ele me suportava e me dava forças. Imagine qual não foi nosso espanto com as sincronicidades do mundo quando vejo o nome da Thays como plantonista que iria nos atender. Quem é Thays? A backup da Lu! Eu não disse que Deus é perfeito em suas obras?! Ela nos atendeu super cuidadosamente, foi carinhosa conosco e inclusive fez a ponte com a Lu após o exame. Durante a ultra, vimos que Nico estava posicionado certinho, com o dorso para o lado esquerdo e cefálico. Tudo a favor do parto. Eu bem tinha conversado com ele várias vezes ao longo da gestação para ficar daquele jeitinho e ele fez a parte dele! Eu estava bem feliz. Mas ao final, eu ainda estava somente com 2cm de dilatação e a orientação da Lu foi clara: ir para casa.

 

Voltamos, então, para a casa. Pedro nos deixou no começo da nossa rua, para ir ao mercado comprar mais frutas para levarmos para a maternidade, e assim poderíamos seguir fazendo exercícios e tudo o que fosse possível para auxiliar o TP. Decidi subirmos caminhando a rua. Eu e Nina, de braços dados. No momento das contrações nos divertíamos, a gente ria (juro que eu ainda conseguia e recomendo, viu? porque durante a risada parecia que doía menos), abracei as árvores da rua durante as contrações, rimos das caras dos motoristas e motoqueiros que passavam e viam aquela barriguda sentindo dor. 

 

Chegamos no prédio, tomei um banho para relaxar, dormimos um pouco e esse descanso foi crucial. Nina, enquanto isso, preparou absorventes com ervas que me ajudariam no pós-parto, e ficou ali cuidando de nós e nos assistindo: ela me fez massagem, me acalmou. Almoçamos os três. Depois, descemos para o play, eu e Pedro ficamos jogando bola (e, sim, entre um chute e outro, quando surgia uma contração, eu corria para abraçá-lo e ele ali me segurando). Depois, me sugeriram ir para a piscina, mas água gelada já é sofrimento demais, não é (risos)? Tudo bem que ajuda a contração, mas eu não dava conta não! Então, me desafiaram: eu teria que subir os oito andares do prédio caminhando. E lá fomos os três, subindo tudo. Em casa, continuei com os exercícios na bola, fazia algumas posições que aprendi no yoga e assim seguia o TP. 

 

Quando foi por volta de 17h, minhas dores ficaram maiores. Nessa hora, resolvemos retornar à Perinatal, para inclusive conseguirmos ser atendidos pela Thays ainda, já que ela iria embora às 19h. Quando chegamos, no exame de toque, eu estava com quase 5cm e então ela me internou, justamente para não ter que ir e voltar, já que faltava tão pouquinho.

 

Fomos para o quarto. Lá, continuei todo o processo, mas aparentava tudo ser bem lento ainda. E, enquanto eu estava apoiada em uma cadeira, a porta abre: é Débora chegando. Meu coração fica feliz e nos abraçamos. Seguimos em TP, e cada vez mais partes do colo do útero saíam, mas tudo muito lento. Nessa hora, eu estava apoiada na cama e a porta abre novamente: é a Lu! Pronto, Nico. Agora você podia nascer.

 

Lu veio, me abraçou em um abraço longo, carinhoso, caloroso que só ela sabe dar. Depois, me mostrou um vídeo do último parto que ela havia conduzido e que havia durado muito tempo. Que lindo ver aquelas imagens. E achei muito legal da Lu trazê-las para nos inspirar. Ver a felicidade alheia é combustível para a nossa.

 

Nós continuamos em TP, mas ele ainda estava muito lento. E aí vale colocar uma questão muito fundamental: a técnica e o profissionalismo da Luciana. Lu é uma profissional ímpar, não só por ser espiritualizada e humanista, mas também por ser extremamente competente. Tenho certeza de que eu estava na melhor obstetra que eu poderia ter na vida, mas que certamente está entre as melhores do Rio de Janeiro. Lu trata a gente com um cuidado e uma atenção que, como já relatei acima, nunca vi antes. É de uma profundidade e de uma leveza ao mesmo tempo, que encanta. Mas é também cirúrgica no que precisa ser feito, especialmente nas intervenções. E é isso que traz humanidade ao processo. 

 

O parto humanizado não é sobre a via, se vaginal ou cesárea, não é sobre intervir ou não, mas sobre tratar e conduzir aquele processo daquelas pessoas com a dignidade, o respeito e o amor que o ser humano merece. E Lu faz isso com maestria. Ela sabe exatamente quando entrar, em que momento intervir, como intervir e conduz isso à imagem e semelhança da beleza com que Deus desenha suas obras. É bonito assistir o que ela faz e o amor que ela dedica ao seu ofício. Ofício não. É missão e é por isso que é tão bonito. Aproveito aqui para também deixar registrada minha profunda gratidão à Lu, de todo coração. Meu desejo é também de que mais mulheres e famílias tenham acesso a você, que esse lindo partejar que você conduz e ilumina o mundo te traga em triplo toda energia, que o mundo valorize profissionais como você e que a saúde possa ser ressignificada para que mais gente possa ter acesso ao cuidado que minha família teve. Eu me sinto muito honrada e grata por conhecer e ter na minha história gente de tanta luz, porque são essas pessoas que mudam o mundo.

 

Bem, voltando ao trabalho de parto, como ele estava muito demorado, a Lu me propôs uma intervenção. Não sei tecnicamente como escrever, mas vou conduzir com minhas palavras: ela limparia o restante do colo do útero para conseguirmos agilizar um pouco o processo. Eu consenti. Pouco depois, entramos na fase mais dura: a transição.

 

Pouco tempo após a intervenção da Lu, eu entrei em uma fase muito difícil do processo, que durou toda a madrugada. Eu poderia dizer “punk”, ‘hard” ou “CARALHA” (sim! - risos - e isso virou nossa piada interna) e nada vai traduzir o que foi viver essa fase. A dor estava insuportável. Nesse momento, fui para o banheiro, em busca de alívio. Eu chorava muito, porque achava que não ia suportar. Foi o momento em que eu deitei no box, deixava a água cair na minha lombar e na minha barriga, chorava e entregava. Ali eu desisti. A dor estava grande demais. E essa desistência é inclusive uma das características da fase de transição. Marina e Pedro vinham ao banheiro e tentavam me convencer a todo custo levantar. E eu insistia em argumentos sem sentido nenhum, porque nessa hora, a dor estava grande demais. Eu dizia que não ia sair dali, que era para a Marina chamar a Lu e me cortar, que eu ia fazer a cesárea. Eu estava desistindo mesmo. Marina me perguntava: “Juliana, você vai ficar aí a vida toda?” e eu respondia “Sim”. Ela dizia “Daqui a pouco o Nico vai fazer 15 anos dentro da sua barriga!” e eu não me importava. Pedro vinha e me dizia para não desistir, que era o que eu tinha escolhido, mas eu retrucava dizendo que já não era mais. Pedi a Nina para avisar a Lu de novo e ela disse que eu teria que aguardar, para que toda a equipe de cesárea fosse mobilizada. Para eu relaxar, porque não poderia fazer cesárea se não estivesse relaxada. Viu como uma doula é importante? Porque ela sabia que eu estava passando pela fase de transição e o que eu precisava era só de um pouquinho mais de tempo. 

 

Pedro me confidenciou após o parto que, enquanto isso, conversava com a Nina e dizia que não sabia mais o que fazer. Que não sabia mais o que me dizer, porque eu o cortava com todos os meus argumentos sem sentido. E aí ele pediu uma luz para poder saber o que fazer. Ele disse que, então, pegou o celular, abriu o facebook e, ao ler um texto do Piangers (maravilhoso - recomendo demais ler e ouvir o que ele diz!), havia uma frase de uma garotinha de 4 anos. Foi essa frase que ele levou para mim de presente, quando eu estava lá nas profundezas, deitada no chão do banheiro, vivendo aquilo que eu achava que não tinha fim. Pedro chegou no box e me perguntou “Ju, sabe o que é o amor?” e eu perguntei aos prantos “O quê?” e ele disse “Amor é o que te faz rir quando você está cansado. Quem disse isso foi uma garotinha de 4 anos”. Nessa hora, começou uma catarse. Era eu saindo da fase de transição. Comecei a chorar compulsivamente, como se isso fosse o gatilho que eu precisava para seguir em frente. Pedia desesperadamente para ir para a banheira.

 

Nina, conduzindo com perfeição seu papel de doula, conseguiu acionar o maqueiro para subir para o Centro Cirúrgico e chegamos na Sala de Pré-Parto 1. Lembro de mim sem forças, sentada na cadeira de rodas, sendo conduzida para o corredor, subindo o elevador, em prantos, passando pelo vestiário e chegando na Sala de Pré-Parto. Era como se houvesse uma luz ali. A banheira estava enchendo enquanto eu me levantei e começava o exercício de abaixar a cada contração. Ali, começou a sair uma água límpida e todos comemoramos: a bolsa havia rompido. E aqui, cabe um detalhe importante nessa história: Pedro ligou para minha mãe após a primeira ida para a Perinatal para dizer que eu estava em TP, para que ela pudesse sair de Minas. Nesse momento, ela perguntou se a bolsa tinha rompido e ele disse que não. Foi quando ela disse que só iria no ônibus da noite, com calma, porque a coisa só ia engrenar depois que a bolsa tivesse rompido.

 

Pois bem. Era comecinho da manhã de quarta, por volta de 5h da manhã, quando subimos para a sala de parto. Quando chegamos, Lu estava lá, me examinou e verificou que eu estava já com 8cm de dilatação, mas a bolsa ainda estava íntegra. Quando eu estava já dentro da banheira, Lu me disse toda feliz que eu havia conseguido passar pela fase de Transição. E seguimos. Passei a manhã toda com o Pedro na banheira, sentindo as contrações, fazendo os exercícios. Nessa hora, chegou o Dr. Arnaldo, pediatra da sala de parto e fiquei feliz com sua presença ali. Era sinal de que faltava pouco. Depois, fui para a cama em que, dobrada, eu me apoiava a cada contração que sentia. Nessa hora, comecei a me cansar. Já estava exausta e começava a me sentir fraca. Tinha passado esse tempo todo da Perinatal me alimentando de frutas, castanhas, tâmaras, biscoitos, mas sempre que me ofereciam algo mais forte eu não queria. Agora o corpo estava cobrando energia. Ali me entreguei e falei: preciso descansar. Pedro buscou uma comidinha para mim, me alimentou, e por alguns momentos eu fiquei ali alternando a tentativa de um sono com cada contração. Eu precisava daquele momento para me recuperar.

 

Mas depois de um tempo, a Nina me falou: “Ju, você agora tem que começar a se mexer, senão não temos como seguir”. E aí voltei a ficar de pé. Nesse momento, como já estávamos com a bolsa rota, Lu monitorava de meia em meia hora os batimentos do Nico e a sua posição na barriga. Seus batimentos estavam ótimos, na mesma intensidade, mas ele descia muito devagar. Como disse a Lu, era meu bebê kapha e as coisas iam ser no tempo dele.

 

Depois de um tempo, pedi para ficar sozinha com o Pedro na sala, para que pudéssemos nos conectar só nós dois. Estava sentindo falta disso: só eu e ele. Ali ficamos durante um tempo e foi importante para ele me trazer de volta, para eu me lembrar de porquê aquilo tudo estava acontecendo: a vinda do Nico era o milagre maior do nosso Amor. E ver aquele homem ali, me sustentando, me guardando, me dando força, sem me deixar esmorecer, incansável, forte, acreditando nisso tudo era o que eu, por um momento - depois de tanto cansaço - estava começando a esquecer. Lembrei de tudo o que ele fez esse tempo todo, todo seu carinho, sua dedicação, seu Amor incondicional em nossa relação, o tanto que fiquei admirada com seu crescimento ao longo da gestação, o tanto que eu era grata por termos nos reencontrado nessa vida, porque, certamente isso é um encontro de almas. E uma outra alma linda havia nos escolhido para sermos pais dela. E foi ali que a energia que eu precisava e que ele me trouxe em forma de alimento, me nutriu de um jeito muito diferente. Éramos nós dois, entregando o nosso melhor e abrindo caminho para um Amor maior aparecer. Era a natureza sendo perfeita. Era a sequência de Fibonacci: 1, 1, 2, 3… 1 que, diferente de outro 1, se somaram e resultaram em 2. 2, que é maior que ambos os uns, que é diferente de ambos os uns, mas que guarda a essência e individualidade de ambos os uns. Esse 2, agora, se somava ao 1 novamente, resultando em 3. Éramos nós dois virando três e isso era perfeito. Essa perfeição da natureza eu reverenciei, agradeci e pedi para seguirmos.

 

Nisso, a equipe voltou para a sala, e continuei os exercícios, mas ainda não engrenava. Lu monitorava e Nico descia muito devagar, mas seus batimentos continuavam ótimos. Eu estava contraindo dentro da banheira, fazendo exercícios, quando parei e Pedro olhou no fundo dos meus olhos e pedia para ter forças: “Vamos, Magrinha, ele já está quase aqui, é o sprint final”. Foi quando Nina me contou a história de outra doulanda sua: ela disse que começou a imaginar uma fogueira, que entrava dentro da fogueira e ali pedia que seu filho nascesse.

 

Ali, tive outra catarse. Fechei os olhos, tirei força de não sei onde, e comecei a fazer muitos exercícios de forma extenuante, para deixar o Nico vir. Subia na cama, corria no mesmo lugar, me agarrava ao rebozo que estava preso na argola. Comecei a entrar em um estado meio meditativo no meio daquilo tudo, em que vinha na minha cabeça uma imagem em que eu via a mim e Nico em cima de um dragão, domando-o, trazendo nossa força para guiá-lo. Fiquei um tempo fazendo isso com o auxílio do rebozo na argola, pedi para ligarem o chuveiro da banheira e ali eu pedi para que lavassem tudo que precisasse, pedia para que Nico viesse, que as águas que o guardaram o trouxessem. Pedia, chorava, urrava. Sim, urrava. Parto é visceral. O grito vem das entranhas e eu só queria trazer meu filho para esse mundo. E eu nunca - nunca - tinha gritado daquele jeito.

 

Mas aí eu me cansei, de novo. Ali eu desisti. Mas agora era porque já não via mais saída. Lu auscultou Nico, e ele havia descido muito pouco depois de 1 hora de toda aquela força. Pedro me confidenciou depois que, naquele momento, ele também ficou preocupado, pois via minha exaustão e o que ele tinha me pedido, eu tinha dado: o sprint final. E estávamos preocupados com a questão da bolsa rota, mesmo que tranquilos em função dos batimentos do Nico estarem perfeitos. Eu dei o sprint final que ele me pediu, mas eu não tinha conseguido.. Ali foi o momento da entrega. E falei: façam o que quiserem. Eu só sei que agora, não consigo mais. Saí totalmente de mim, do meu controle, de conduzir o processo. Só entreguei. Mesmo.

 

Foi, então que Lu disse: “Ju, vamos fazer uma coisa: eu vou te examinar, vemos como ele está e de repente fazemos algum movimento para ajudá-lo, porque, assim podemos entender se há algo mais que possamos fazer”. Consenti e me deitei na cama. 

 

Quando Lu me examinou, qual não foi a surpresa de todos nós: eu estava com dilatação total, mas a minha bolsa estava íntegra. Intacta. Isso mesmo. Ela não havia rompido. A água que saía aos pouquinhos esse tempo todo provavelmente era urina (afinal, eu estava me hidratando a todo momento e ainda fiquei imersa durante um bom tempo) ou poderia ser até mesmo água da banheira, por ter ficado um bom tempo lá dentro. Fato é que a bolsa seguia íntegra.

 

E ali eu percebi um aprendizado muito importante que faltava no parto, mas que já havia começado na semana anterior: a cura da linhagem. No ritual que eu e Pedro fizemos, escrevemos a carta para todos os nossos ancestrais. Mas a questão chave ali eram as energias masculinas, os aniversários dos homens que se foram, as ressignificações. Agora, ali, naquele momento, era a parte feminina que estava me chamando. Era acionar a força das minhas ancestrais que pariram todas de partos normais, mas que também tiveram dores emocionais relacionadas a esses partos e filhos. Era a bolsa rota que minha mãe comentou que precisava acontecer para que o filho nascesse. E que eu sozinha não tinha rompido. Eu achava que tinha, mas não. Eu precisava de ajuda. Perguntei a Lu o que ela me sugeriria fazer e ela, com todo o carinho, calma e cuidado que teve sempre, me disse que seria sim uma intervenção, mas que ela iria furar a bolsa e aí o Nico nasceria enfim.

 

Então, ainda deitada, virei de lado e Lu fazia um carinho muito gostoso na minha cabeça ainda molhada de tanto banho. Eu pedi a ela “Lu, posso dar meu piti?” e ela rindo disse “claro!”. E ali, eu chorei como nunca. Chorava e pedia a Deus para transmutar aquela energia da linhagem, que eu pudesse ser a mãe que eu sou em essência e que o Nico merece que eu seja. Pedi perdão a ele por achar que ele não queria nascer, logo ele que estava ali pronto, preparado, fez a parte dele lindamente em todo o momento e que me escolheu para ser sua mãe. E ali eu fiz promessas para ele: de que eu ia dar o meu melhor, que eu ia passar por tudo o que fosse para honrar esse papel que ele me deu e que é tão grandioso que é o de ser mãe. Pedi a Nossa Senhora que se revelasse como mãe de todos nós ali e que aquela energia de cura pudesse ir para todas, absolutamente todas as pessoas, que aquela bolsa que fosse se romper pudesse levar todas as ilusões, medos e desesperanças de todo mundo embora, para que a gente pudesse ser quem somos. Para que pudéssemos sair da bolsa em que muitas vezes nos prendemos e, assim, perdemos a oportunidade de sair para ver a grandiosidade do mundo fora dela. Pedi para que ninguém mais me deixasse me limitar e para que eu pudesse ter a força de romper as outras bolsas que porventura aparecessem. Pedi para morrer na minha segunda metade filha, cuja outra metade morreu ao perder meu pai, para poder ser mãe.

 

Agradeci imensamente à minha mãe, à minha família, às mulheres dessas famílias, a toda minha linhagem, que a cada geração procurou - mesmo que inconscientemente - entregar uma maternidade melhor, que buscou evoluir, mas também a liberei, porque sei que posso e preciso fazer diferente. Que eu posso construir o papel de mãe, não pelo DNA e registros que trazemos em nosso corpo e mente, mas a partir do meu Eu maior, da minha essência, de forma grande, digna e íntegra. Porque foi desse lugar que meu filho havia me escolhido. E também agradecia pela ajuda que o Universo mais uma vez colocar as pessoas certas no meu caminho. Nesse momento, disse a Lu: “Lu, você é mãe, Lu…” E ela disse “Sim…”. Então pedi a ela “Lu, me ajuda a ser mãe? Pode estourar minha bolsa”. Ali, senti a última contração e enquanto a sentia eu dizia: “você é a última, eu empresto meu corpo para sentir essa última contração em nome de todas as mulheres, porque não precisa ser sofrido assim, não precisa”.

 

E aí me recompus, afinal agora tudo fazia sentido. Foi quando me deitei de costas novamente, me colocaram a comadre. Eu via a Lu me dizendo “fica tranquila, porque estourar a bolsa não dói nada”. E enfim ela foi rompida. Eu sentia aquele mundo de água sair de dentro de mim e tinha uma sensação de alívio que não sei explicar. Foi quando Lu disse “Ju, o neném já está aqui, ele acabou de descer no meu dedo! Coloca a mão para você sentir”. E eu senti!!! Senti o cabelinho do meu filho!!! Que sensação maravilhosa, meu Deus! Que libertação! Finalmente! Ele estava vindo para mim! E aquilo era lindo demais!

 

Então comecei a contrair e as dores, apesar de mais intensas, não eram mais sofridas. Porque eu sabia que tinha passado o Portal do Parto. Porque é um portal gigante, imenso. Ali morria uma Juliana, para nascer uma outra Juliana, que carrega toda a história da anterior, mas abre espaço para muito mais. Porque para ser mãe, é porque nós merecemos muito mais. Um Ser nos escolheu para nos ensinar, para aprender conosco e para que todos tenhamos a oportunidade de nos conectar com nosso algo mais. E que nós temos potência para isso. A gente pode! De verdade!

 

Depois de um tempo de pé, tempo este em que a banheira encheu, entramos eu e Pedro de volta na banheira. Nina, enquanto acariciava meu cabelo e meu rosto, me perguntou qual música eu queria que tocasse quando o Nico nascesse. E eu disse que só queria o silêncio.

 

Eu estava ajoelhada, na borda da banheira e o Pedro de costas para mim. Ele iria receber o Nico no mundo, do jeitinho que a gente queria. E ali, ajoelhada, eu fique por pouco mais de uma hora, com os olhos fechados. Eu conversava com o Nico, disse a ele para vir no tempo dele, que eu não ia fazer força, não ia provocar resistência, só ia sentir ele vindo. Doía, queimava, mas isso não era nada perto da sensação de que ele estava vindo, no tempinho dele, respeitosamente, rodeado de amor, de pessoas fortes e lindas, de corações gigantes, de amparo, de Ágape. É isso. Nico estava ali rodeado de Ágape, que só seria possível sentir no silêncio, na observação, na conexão e no sentir. E eu sentia ele vindo. Quando ele coroou, às 17h53, eu senti sua cabecinha e seus cabelinhos lisos. Meu coração se encheu de ternura. E de repente ele e meu corpo fizeram a força necessária para sair a cabeça. Ouço Nina dizer “ele tá quase aqui, mas ainda não nasceu”. Foi a única coisa que ouvi em todo o momento em que estava ali ajoelhada.

 

De repente, senti quase que um tiro e era ele saindo de mim. Quando olhei para baixo, vi o cordão umbilical e a água se banhar de sangue. Quando olhei para trás, não acreditei: vi ele com os bracinhos e perninhas abertas, com uma expressão serena, dentro da água, sendo segurado pelo pai. Lu me orientou a levantar devagar e passar a perna por cima dele. Devagarzinho, com Pedro me abraçando pelas costas, pegamos o Nico no colo e nós dois tiramos ele da água. Seu primeiro sopro de ar, seu primeiro respirar foi nos braços dos seus pais. E isso é sem preço. Dr. Arnaldo trouxe a cobertinha para cobri-lo e ficamos ali, aguardando o cordão parar de pulsar. Pedro então cordou o cortão umbilical do pequeno e ali ficamos um tempinho, mas que para mim durou a eternidade.

 

Ainda na sala de Parto, Pedro, Dr. Arnaldo e Dra. Fabiana conduziram todos os exames e cuidados iniciais do Nico. Ele não saiu de nosso lado em momento algum. Enquanto isso, Lu e Marina estavam ao meu lado. Era a hora de parir a placenta. Depois de tantos processos, eu simplesmente sabia que estava tudo bem. Nina me confidenciou depois que achava que eu poderia ainda levar um tempo, mas não. Lu disse que ela já estava toda descolada: em uma respiração, ela saiu. Não tinha porque haver qualquer resistência. Eu já havia passado do Portal. E como não fiz força para que ele saísse, ele veio no tempo dele, praticamente não tive laceração: foi tão pequena a ponto de não precisar dar ponto algum.

 

Com o pequeno já vestido, nos braços do pai, após 41 horas de trabalho de parto a partir das primeiras dores em casa, sendo delas 27 horas de trabalho de parto na Perinatal, estávamos ali, profundamente em êxtase, ocitocinados, e com o coração recheado de gratidão e de Ágape. Sobre esses números? Não se assuste. O Parto é uma experiência tão incrível que a noção de tempo e espaço é totalmente transcendida. A tal da Partolândia existe sim e lá a dimensão tempo-espaço é diferente da que conhecemos: é outra realidade. E agora estamos aqui vivendo outra nova realidade: aquela em que temos Nicolas conosco, construindo juntos o restante da travessia, com o coração cheio de Amor e gratos por tudo o que vivemos até aqui e pelo que virá. Incondicionalmente.

 

 

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