Relato de parto: Annelys e Aurora

May 17, 2017

 

Meu relato começa no momento em que decidimos que íamos ter um bebê, parei de tomar a pílula anticoncepcional e dois meses depois o teste de farmácia nos dizia que estávamos grávidos. Decidi que ia fazer de tudo que estava ao meu alcance para ter a gravidez e o parto que sempre sonhei. Busquei pessoas queridas que passaram pela experiência de ser mãe recentemente, garantindo conselhos excepcionais. Comprei e li livros maravilhosos sobre o desenvolvimento do espírito no útero da mãe, sobre a importância da gestação na vida futura do bebê, sobre parto ativo e sem dor, e muitos outros. Na internet vi diversos relatos de partos maravilhosos, me dei ao luxo de só ler coisa boa e ver vídeos com final feliz, pois a gestação inteira me preocupei em apenas ouvir histórias boas para manter minha mente, meu corpo e meu espírito em estado de harmonia. Mudei minha alimentação, parei de comer açúcar, não tomei mais café, tomei bastante suco natural direto da fruta, fiz musculação, yoga para gestante, pedalei, caminhei, fiz trilha, fui à praia, minha gestação foi a melhor que eu poderia ter, não senti dor nenhuma em nenhum momento!

 

 

Durante a gravidez, uma dúvida que surgiu foi a questão de buscar acompanhamento de uma doula ou não. Foi aí que uma amiga querida me indicou uma doula que acompanhou a gestação dela e me disse que tinha sido essencial sua presença em todos os momentos. Decidimos, então, que iríamos ter o acompanhamento da doula.

 

A doula reavivou em mim um sonho que eu tenho de ter um parto domiciliar, ela junto com uma enfermeira fariam nosso parto em minha casa! Me senti a pessoa mais realizada do mundo, compramos as coisas necessárias para o evento, como protetor impermeável de colchão, toalhas, fraldas, lençóis, elas trariam uma banheira, bola, tudo para o momento do nascimento do nosso bebê. Pensamos também, como nosso bebê ia nascer em casa, só iríamos avisar a família quando já tivesse nascido, para a ansiedade geral não atrapalhar o desenrolar do parto.

 

No entanto, lá pela 36ª semana, não tenho certeza, pois nunca consegui contar direito as semanas de gestação, recebemos a notícia pela ultra que nosso bebê não havia virado e estava pélvico, sentadinho... Com esse quadro não poderíamos ter o parto domiciliar que estávamos planejando, pois o risco de insucesso era grande, e o médico que estava nos acompanhando não realizava o nascimento de bebês pélvicos por meio do parto normal, então se o bebê permanecesse pélvico, o médico aconselharia a realização de uma cesariana. No momento em que recebi essa notícia, comecei a chorar, no consultório mesmo, chorei no caminho todo de volta pra casa e chorei mais em casa. Meu marido tentou me consolar, mas só de pensar em fazer uma cirurgia eu já me desesperava. Fomos conversar com a doula, que me acalmou e disse para eu não executar a sentença antes da hora, ainda tínhamos chance do bebê virar até o momento em que eu entrasse em trabalho de parto. Fizemos todos os tipos de tentativa para que o bebê virasse, fiz acupuntura, usamos charuto de moxabustão, fiz vários exercícios, coloquei música na parte de baixo da barriga, colocamos gelo na parte de cima da barriga e pano quentinho na parte de baixo, todos os dias conversávamos com nosso bebê chamando para virar e ficar na melhor posição para seu nascimento. Só que nada parecia mobilizar o bebê, que permanecia muito confortável sentadinho na barriga. Chegamos até a considerar a versão cefálica, só que me pareceu muito agressivo forçar o bebê a ir para uma posição que ele sozinho não quis. Foi então que decidimos que íamos tentar arriscar o parto normal mesmo se o bebê não quisesse mudar de posição. Essa decisão nos fez buscar outro médico na 37ª semana de gestação. Foi aí, que por indicação da doula, chegamos até a Luciana.

 

Na primeira consulta já pensei, tem que ser ela a fazer o nascimento do nosso bebê, só que ela tinha uma viagem marcada e só voltaria um dia depois da minha data provável de parto, e ainda, meu plano de saúde não aceitava os hospitais que a Luciana indicou para o parto na cidade do Rio de Janeiro, para que meu plano de saúde cobrisse teria que ser em Niterói. Pronto, foi nesse momento em que a ansiedade bateu forte, será que nosso bebê iria esperar a Luciana voltar de viagem? Será que a equipe da Luciana iria aceitar fazer o parto em Niterói? Enquanto ela não voltou de viagem não conseguia pensar em outra coisa... Mas enfim, nosso bebê esperou, ela voltou de viagem e topou a aventura de atravessar a ponte Rio-Niterói para trazer ao mundo nosso bebê.

 

Mas o tempo foi passando e nada de começar o trabalho de parto, o bebê estava ótimo e nada de querer nascer, e ainda sentadinho. Eu já havia parado de fazer os exercícios e as demais coisas que dizem ser bom para o bebê virar, a Luciana conversou comigo me disse para entregar e relaxar, ir até uma árvore de raízes bem grandes e fortes, pisar descalça, me conectar com a natureza e com meu eu interior. Confesso que me esforcei para entregar e buscar dentro de mim a maior fé que eu poderia fazer brotar em meu coração, mas estava com muito medo de não conseguir ter um parto normal. Eu conversava todos os dias com nosso bebê para que ele viesse logo ao mundo senão iriam ter que cortar a barriga da mamãe. Mesmo quase chegando na 42ª semana a Luciana esperaria mais um pouco para que eu pudesse entrar em trabalho de parto, quem sabe esperar até 43 semanas, pois os exames nos informavam que estava tudo bem lá dentro da barriga.

 

Mas não foi preciso esperar mais, na tarde do dia 25 de dezembro, estava toda a família reunida para o almoço de natal, eu estava com minha prima de 6 anos na piscina, ela conversava com nosso bebê chamando-o para vir aqui pra fora brincar com ela, quando senti algum líquido saindo de dentro de mim, saí da piscina e vi que minha bolsa havia rompido, começou a descer um líquido bem transparente, a família toda ficou super eufórica, todo mundo falando um monte de coisa ao mesmo tempo, me mandando sentar, comer, beber água, e eu só conseguia sentir uma alegria imensa por ter enfim chegado a hora. Tentei almoçar, mas não consegui comer nada, apenas tomei um suco de laranja.

 

Liguei para a doula para avisar o ocorrido e para a Luciana e ela pediu para irmos fazer um exame para garantir que os batimentos do bebê estivessem bem. Fui então para casa, tomei banho, peguei minha mala maternidade e fomos para o hospital fazer o exame. A medida que o tempo foi passando o líquido que escorria foi deixando de ser transparente e foi escurecendo e o resultado do exame que fizemos foi inconclusivo, não conseguimos saber se o bebê estava totalmente bem nem se estava mal, com isso a Luciana já estava a caminho para o hospital e a doula também. Enquanto esperávamos a chegada da Luciana, comecei a desconfiar que as contrações estavam aparecendo, eu sentia minha barriga se contorcer levemente, pedi para que meu marido contasse o intervalo entre uma contorcida e outra e o tempo que eu levava sentindo aquela sensação. Não sabia dizer ao certo se era realmente uma contração, mas estava ocorrendo com um intervalo de uns 5 minutos entre uma e outra e uma duração de uns 30 segundos mais ou menos. Tivemos uns pequenos contra tempos burocráticos no hospital, mas que eu deixei que meu marido resolvesse e eu me concentrei apenas no meu momento, deixei tudo de lado e me permiti sentir somente a alegria e a felicidade de estar chegando a hora do meu bebê nascer e eu poder pegá-lo em meus braços, eu não estava acreditando que estava em trabalho de parto e estava contraindo e uma felicidade tão grande tomou conta do meu ser. Em nenhum momento senti dor ou medo, pois sabia que estava amparada. Quando a Luciana chegou no hospital com sua equipe, fomos para uma sala, onde ela me tranquilizou, conversamos, ela me deu a mão e rezamos juntas para que o melhor acontecesse. Neste momento a doula também chegou. Foi quando já estava saindo de mim uma graxa preta ao invés do líquido transparente inicial do rompimento da bolsa, nosso bebê estava na presença de mecônio e entrando em sofrimento. Senti que ia ser preciso intervir, apesar de ainda restar muita esperança em mim para o parto normal. Mas a Luciana, com muito carinho, me disse que não poderíamos mais esperar era necessário que fizéssemos a cirurgia naquela hora. Com essa decisão, comecei a chorar, pois meu maior medo era a realização de uma cesariana e, naquele instante, eu fiquei com medo. Mas, a doula também estava do meu lado, me abraçou, me explicou tudo que iria ocorrer e cada detalhe do processo. Comecei a racionalizar um pouco meus sentimentos para dizer para mim mesma que não precisava ter medo de nada, que eu deveria confiar em toda a equipe, afinal, a equipe estava lá só para trazer nosso bebê ao mundo e a hora era aquela. Subi de cadeira de rodas para o centro cirúrgico, apesar de me encontrar bem para andar.

 

Mudei de roupa na sala de parto humanizado do hospital, que era a antessala do centro cirúrgico, chorei mais um pouco para me aliviar e fui para a maca. Mesmo o parto não sendo o parto normal domiciliar dos meus sonhos, foi o parto mais maravilhoso que eu poderia ter tido. Não senti nada quando tomei a anestesia, estava muito relaxada e confiante. Ganhei uma força de Deus e uma fé que me transbordaram do espírito para o corpo. Meu marido me segurou para aplicação da anestesia, ficou do meu lado todo o tempo, a doula também, tocou a música que eu havia levado para harmonizar o ambiente. Perguntei se eu poderia cantar, a Luciana perguntou se eu cantava bem, eu disse que não rsrs mas mesmo assim ela disse que faria esse esforço de me ouvir cantar e cantei a música que remete o pensamento a Jesus. E, quando eu menos esperava a Luciana já havia tirado de dentro de mim nosso bebê, olhei e vi que era Aurora, pois até então não sabíamos o sexo.

 

 

Ela ficou uns segundos molinha no meu colo, foi levada para aspirar pela pediatra e rapidinho retornou melhor. Enquanto Luciana terminava de fechar minha barriga a doula já colocou Aurora para mamar, aquele mini ser mamando no meu seio assim que saiu da minha barriga me encheu de emoção, deixando a lembrança do parto da Aurora como o melhor momento da minha vida! A sensação que tive era que eu poderia passar por aquilo umas cem vezes! O que me fez aprender que não sou capaz de controlar tudo em minha vida, mas que quando a gente se movimenta e faz tudo que está ao nosso alcance para as coisas darem certo, o Universo conspira ao nosso favor, permitindo que, não a nossa vontade, mas a Vontade Divina aconteça.

 

 

 

Annelys Machado Schetinger

Mãe da Aurora, Mulher Viva

 

 

 

 

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